"...depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro"
Caio Fernando Abreu.
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"Ninguém precisa mais me dizer como é estranho ser humano nessas horas de partida"

A morte de Eugênio tem me feito pensar em muitas coisas que aconteceram nos últimos 4, 5 anos. Me fez perceber como determinadas áreas da minha vida ficaram fora de controle. Como pessoas que eu julgava que fariam parte da minha vida para todo o sempre, hoje me são completamente estranhas (fazendo parte de um passado que parece ser tão distante que a própria natureza se encarregou de engolir). Pessoas com que dividi muitas frustrações e alegrias, choros e risos, e que hoje se encontram tão afastados, quer pelo tempo, quer por brigas de egos. Enfim...

Não vou falar aqui de nenhum nome específico, pois não vem ao caso, mas a fragilidade da morte – que não queremos ver – trás à tona a realidade nua e crua, tal qual ela deveria ser sempre. Realidade que buscamos incessantemente mascarar para evitamos “aborrecimentos”.

Desde terça da semana passada venho sentindo uma necessidade louca de procurar determinadas pessoas das quais me afastei, mas a coragem me falta. Sou cabeça dura, sabe? Não sei passar por cima do meu ego e das feridas abertas pelas palavras que ferem. Palavras que machucam quando proferidas pelas pessoas que você julgava amar.

Certa vez assistindo uma entrevista de Elis Regina, ela falou algo como “vou deixar de me preocupar com pessoas e coisas pequenas. Agora vou cuidar da minha vida...” e a partir disso, passei a ignorar as pessoas que me fazem/fizeram mal. Literalmente risquei essas pessoas do meu convívio.

Logicamente, quando se tem amigos em comum, acabamos sabendo dos fracassos e dos sucessos de fulano e sicrano. E por mais que tente a todo custo parecer uma pessoa insensível, acabo vibrando com as conquista e ficando triste com as derrotas. Eugênio fazia esse elo entre um passado esquecível – e inesquecível ao mesmo tempo – e um presente tranqüilo.

Ele esteve presente em muitos dos momentos felizes dessa fase da minha vida (a banda dele tocou na nossa festa de formatura e sempre que escuto determinadas músicas, pessoas, cheiros e cores, vem tudo a minha mente como um flash). No momento das brigas, ele ficou de fora vendo o circo pegar fogo para não ter que se posicionar entre um e outro “grupo”. Na época lembro que fique com raiva porque ele não tomava partido, mas hoje vejo que foi a decisão mais sensata.

Às vezes ficar em cima do muro é a forma mais coerente de escapar de problemas futuros, a minha própria experiência me fez chegar a essa constatação.

Estou pensando muito na fragilidade das relações humanas e em como essa mesma fragilidade pode ser estendida para os mais diversos setores. E é uma grandessíssima bacaquice acharmos que o tempo vai fazer tudo voltar ao seu normal.

Hoje percebo que o tempo não cura, que o tempo não volta atrás, que o tempo não resolve nada. Somos nós que temos que anular o reizinho que mora na barriga e fazer as pazes com o tempo, porque "O tempo existe, e passa, leva no arrastão as coisas e as pessoas que não morrem: ficam encantadas. Y solo resta el silencio, un ondulado silencio". (Caio Fernando Abreu)


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A quem interessar possa... Não estou triste nem feliz com tudo que escrevi aqui nesse post, mas sabe aquele momento que é necessário colocar pra fora? Então coloquei.