"...depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro"
Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Esquecer não é perdoar...

À meu anti-herói*

Nem sei ao certo porque estou escrevendo essa carta hoje. Talvez a proximidade do dia 2 de fevereiro e a incrível falta que você faz. É incrível mesmo, porque na nossa caminhada nesse planeta a gente mais batia de frente do que conversava, mais brigava do que dialogava, mais se feria do que se entendia. E hoje, chegar a conclusão de que sinto a tua falta, é uma das poucas vezes que acredito na ironia do destino.
E olha que tenho inúmeros motivos para considerar essa saudade como ironia. Acho que nesse momento da carta deve ser reservado para os detalhes sórdidos - talvez tenha aprendido isso contigo, na convivência diária, pois você foi mestre em ferir os outros...
Nunca encontrei outra pessoa mais intratável e ferina do que você. Com os outros não, você representava o papel de SUPRASUMO DA SENSIBILIDADE E DO ENTENDIMENTO, mas comigo e os que viviam ao teu lado, você nunca conseguiu se mostrar de fato, pelo menos foi isso que Fabinho tentou me mostrar no dia do bota fora de Vivi. Fabinho te elogiou tanto, que se eu não te conhece na intimidade, juraria que era a pessoa mais humana da Terra. Não que você não tenha sido humano, mas é que a descrição que ele fez da tua personalidade de nada batia com a que de fato tinha/tenho de você.
Sem saber, ele acabou estragando meu dia. Fazia tanto tempo que não lembrava mais de você, mais ele insistiu e acabou me desestruturando emocionalmente. Esse não lembrar em nada tinha haver com vergonha ou qualquer outro sentimento que o valha. Não lembrava, ou melhor, tentava não lembrar com o único intuito de não me machucar mais com lembranças que só me faziam/fazem mal. Chorei como nunca havia chorado... Hoje parece engraçado, mas no dia eu só chorava e chorava, não tive mais ânimo de ficar na festa e quase morri de vergonha por estar me mostrando fraca na frente de pessoas queridas e de tantas outras que nem cheguei a conhecer. E você sabe como tento sempre mostrar meu lado “durona”, talvez, e Drª M. certa vez falou, que essa atitude é uma forma de me preservar das pessoas...
É meio paulera, e ao mesmo tempo patético admitir essa saia justa na festa, porque sempre que tento encontrar algum lado bom na nossa convivência só consigo lembrar de duas imagens: uma você sentando ao meu lado dissertando apaixonadamente sobre música; e a outra, uma vez quando você me colocou no teu colo num dia de domingo, após um rápido passeio na cidade, um dos poucos domingos que passamos juntos, já que nessa época eu morava na casa de vovô. Infelizmente essas imagens são muito pouco para amenizar aos outras tantas imagens. Imagens que em nada compactuam com as que carrego de ti.
Vamos a elas... Você em pé de frente para a mesa da cozinha tomando a sua cerveja e xingando a minha mãe; você destratando a minha irmã porque era a forma mais rápida de atingir mainhã; você falando mal da família de mainha; você infernizando a minha vida e a do meu irmão, nos obrigando a comer sem sentir vontade, só porque nunca sentíamos fome – até hoje recordo você me forçando a comer na hora do almoço e quando comecei a passar mal e vomitei tudo. E agora vamos ao máximo do máximo, a pior de todas as imagens: quando você desistiu de tudo, inclusive de você mesmo e se entregou de vez ao vício. Essa é sem dúvidas a mais marcante, pois foi nesse momento que também desisti de você... Você pode até argumentar que foi por puro desespero, já que você acabava de perder o emprego, a única coisa pela qual você vivia e viveu, mas isso não cola, pois tantos outros perderam o emprego e nem por isso se entregaram...
É duro ter que admitir isso hoje, mas na época não tive força para tentar ti sustentar emocionalmente, o que eu podia fazer (eu era apenas uma menina...)? Essa sempre foi uma pergunta para a qual não obtive resposta. Se me sinto culpa por não ter feito nada? Durante muito tempo a resposta foi sim, mas hoje em dia tento ser mais complacente comigo mesma. Hoje consigo enxergar que não tinha nada que pudesse fazer para te trazer de volta do mundo que você resolveu mergulhar de cabeça, já que você mesmo havia desistido de tudo.
É estranho concluir que meu maior medo e ser igual a você. Esquisito isso, eu sei, mas nós somos tão parecidos fisicamente, que é quase impossível não te enxergar todos os dias no espelho. E mais esquisito ainda é ter a certeza que meus gestos são iguais ao teu. Mas prefiro acreditar que cada pessoa tem a sua missão e que a minha difere da tua. Prefiro acreditar também que sou marrenta demais para desistir de mim mesma da forma que você fez com você.
Certa vez na terapia fui inquirida a esclarecer a nossa relação de pai/filha. Passei tanto tempo tentando achar palavras que pudesse explicar a nossa não-relação que acho que não consegui, e nem me lembro ao certo o que falei. Então Mary perguntou se você era o meu vilão? E na mesma hora respondi que você foi meu anti-herói, pois mesmo com todas as coisas que você nos fez passar, sempre tento buscar um pequeno galhinho para salvar a nossa relação do naufrágio quase total que foi.
Talvez por isso tudo e também pelo fato de querer resolver gradativamente essa nossa não-relação, te proponho uma trégua. Da minha parte buscarei sempre ver o “outro’ lado, o lado bom da nossa convivência. Já da tua parte, quero a promessa de que vai estudar e trabalhar muito na busca da tua paz.
Dia 2 você receberá uma lembrança minha, uma coisinha que adoro receber...
Até lá então.
Beijo

Ana E.


*Anti-heróis são personagens não inerentemente maus e que, às vezes, até praticam atos moralmente aprováveis. Contudo, algumas vezes é difícil traçar a linha que separa o anti-herói do vilão; no entanto, note-se que o anti-herói, diferente do vilão, sempre obtém aprovação, seja através de seu carisma, seja por meio de seus objetivos muitas vezes justos ou ao menos compreensíveis, o que jamais os torna lícitos.

Um comentário:

  1. Uma bela carta desabafo!

    E acho que estou mais pra vilã do que pra anti-herói! Gostei da comparação...

    Beijocas

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